Após a manifestação política do piloto Lewis Hamilton, primeiro piloto negro da F1, no GP de Toscana de 2020, que pedia a prisão dos policiais que assassinaram a mulher negra Breoona Tayolor, nos Estados Unidos, em março, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) criou novas regras para impedir novos tipos de protesto no GP da Rússia. Os pilotos estão proibidos de usar qualquer tipo de roupa nas cerimônias de pódio e nas entrevistas pós-corrida que não sejam os macacões até o pescoço e a máscara facial da equipe. O piloto hexacampeão afirmou que isso não vai pará-lo, mas é notório como FIA está tentando restringir as expressões políticas no pós-corrida, inclusive sobre questão racial, embora a própria entidade tendo inaugurado esse um programa pela inclusão das minorias, o We Race As One (ou Nós Corremos Como Um, em uma tradução livre). A FIA tem-se mostrado, ao longo das décadas, mais interessada em pautas e expressões políticas que promovam comercialmente a Fórmula 1, a curto prazo, e, com isso, perde uma importante função de vanguarda histórica nas questões políticas, especialmente em relação a políticas para minorias, como as raciais.

As empresas, atualmente, estão envolvidas em várias questões sócio-ambientais do interesse dos seus consumidores, como direitos humanos, ambientalismo, racismo, campanhas contra a exploração infantil e o trabalho escravo, entre outras. A questão ambiental tornou-se uma das principais pautas do século XXI, por isso a expansão dos partidos verdes e quantidade de consumidores interessados em saber se os produtos que eles consomem são originados de empresas ambientalmente responsáveis. O automobilismo tem-se adaptado a essas mudanças, com carros menos poluentes e até categorias de carros elétricos têm sido criadas, como a Fórmula E e a Extreme-E. A Fórmula 1 tem reagido mais lentamente, por enquanto mantém os carros a combustão, mas tem introduzido, aos poucos, algumas soluções tecnológicas mais sustentáveis. Outra mudança que a categoria resistiu o máximo possível a aderir foi à proibição da propaganda de tabaco. De 1970 a 2006, elas desempenharam uma importante função no financiamento das equipes e estavam bem ligadas à imagem da categoria. Em 2011, a Ferrari foi acusada do uso de propagandas subliminares da Marlboro nos carros e nos macacões dos pilotos, e os equipamentos tiveram que ser trocados. Em 2019, novamente a equipe italiana foi obrigada a retirar o nome da empresa de tabaco dos seus carros, veiculados desde 2018.

Após a morte de George Floyde, homem negro enforcado por policiais nos EUA, em 25 de maio de 2020, os protestos antirracistas espalharam-se pelo mundo e ganharam grande adesão popular, mesmo durante a pandemia. Após o apelo de Lewis Hamilton por atitudes da FIA, ela criou, como foi dito, o Programa We Race as One, para inserir minorias na F1, além de organizar o momento em que os pilotos se ajoelham contra o racismo antes das corridas. No entanto, após os anúncios dessas medidas, aparentemente a FIA relaxou em prosseguir em implementar medidas para combater o racismo. E, inclusive, a entidade condenou a manifestação de Hamilton de pedir justiça pela morte de uma mulher negra. Uma das explicações para isso, além da resistência da FIA de tratar questões políticas, é porque o racismo é um assunto incômodo. O racismo é um pensamento social. Por esse motivo, é possível que pessoas negras tenham atitudes racistas, porque, nesse caso, elas incorporaram os preconceitos raciais da cultura. Para combater o racismo, é necessário, não apenas identificar e enfrentar sua ideologia; mas também as desigualdades sócio-históricas e culturais que surgiram por conta dele; além de punir o próprio racismo. Essa luta contra o racismo gera desconforto e, até mesmo, revolta em muitas pessoas que não consideram o racismo como algo real e/ou que necessite de políticas específicas.

Combater o racismo com eficácia envolve posturas firmes. A FIA não está interessada em admitir uma manifestação pelo assassinato uma mulher negra, ainda mais ocorrido nos Estados Unidos, um país em com fortes tensões raciais, o qual a Fórmula 1 almeja tanto conquistar seus mercados. A FIA também ainda não apresentou medidas consistentes para a inserção de minorias na Fórmula 1, como financiamento e cotas para mulheres, negros e deficientes e outras minorias que correm nas categorias de base. Ela ainda não proporcionou um amplo incentivo para a contratação de grupos minoritários em cargos como trainees, engenheiros, mecânicos, jornalistas e em todas as áreas da F1. A F1 deve manter sua excelência técnica, selecionar quadros de funcionários entre minorias não significa diminuir o padrão de qualidade da categoria, mas incluir grupos há muitos anos marginalizados. Atualmente, há empresas e universidades que apostam em maior diversidade em seus quadros para aumentar seu rendimento e a busca de soluções.

seu rendimento e a busca de soluções.

A FIA, especialmente em relação à Fórmula 1, tem perdido uma enorme oportunidade de ser referência em grandes questões políticas, como o racismo, por não querer interferir em seus interesses econômicos de curto prazo, e por isso grande parte dos avanços das minorias no esporte é devido a iniciativas isoladas da entidade ou individuais. É possível implementar políticas de ação afirmativa mesmo em um ambiente hostil, como demonstra a Nascar, categoria de automobilismo popular principalmente no Sul dos Estados Unidos, onde a questão racial é acirrada. A Nascar implementou política de cotas para pilotos de minorias raciais. Este ano, inclusive, pilotos e fãs mobilizaram-se após a suspeita de um ato racista contra o piloto Bubba Wallace. A FIA, certamente, marcaria a história ao implementar políticas mais efetivas para o combate à desigualdade no esporte, como cotas para profissionais das minorias no automobilismo e incentivo a esses grupos nas categorias de base, além de políticas valorativas, como a promoção de palestras sobre preconceitos contra minorias, a maior exposição da imagem desses grupos em propagandas da FIA e o incentivo que jovens desses grupos tornem-se pilotos. Além de políticas universais, como a diminuição dos custos para as equipes da F1 e para o acesso às categorias de base. A participação da comunidade do automobilismo e do público da Fórmula 1, para que essas mudanças ocorram dentro do esporte.

Cientista política, mestranda na área, fã de automobilismo.

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